Quarta-feira, Julho 01, 2009

Tragaluz

Adoro gamão. Acho o jogo uma interessante mistura entre habilidade e sorte e sou capaz de jogar horas a fio sem cansar. Mas o fato de conhecer poucas pessoas com o mesmo gosto me levou a desenvolver o hábito de jogar no celular. Então todas as noites, antes de dormir, preciso de três ou quatro partidas até pegar definitivamente no sono. E anteontem, enquanto cumpria pela milésima vez esse mesmo ritual, vi um vagalume piscar no meu quarto. A primeira reação foi sorrir. Há quanto tempo não via um desses? Depois achei que era somente imaginação ou apenas algum efeito da minha visão, já comprometida por tanto tempo de olho no visor pequeno do telefone (porque, oi?, um vagalume não deve sair visitando apartamentos de prédio algum. Não na "cidade grande"). Esperei alguns segundos, e lá estava a luzinha piscando novamente. Então decidi que somente a idéia de um vagalume ao meu redor me bastava. Porque naquela hora, pareceu-me um sinal luminoso e claro de que, sim, estou no caminho certo. E talvez o mundo não seja tão bão, Sebastião, mas ele fica imensamente melhor quando se é capaz de perceber pequenas epifanias. Verdadeiras ou inventadas.

Domingo, Junho 28, 2009

As times goes by

Sempre haverá Paris. Nunca essa frase teve tanto sentido quanto agora. Ainda que o correr acelerado do calendário me deixe em dúvidas se o que escuto aqui dentro é o barulho de um canhão ou o meu coração dando saltos. 

Segunda-feira, Junho 22, 2009

Anunciação

Um dia desses, conversando com a Biita, falávamos de como, quase sempre, é estranho vermos os nossos próprios defeitos refletidos no outro, numa espécie de expelho. De vergonha alheia à felicidade de percebermos como é bom já não agirmos mais desse ou daquele jeito, passamos por um corredor polonês de egocentrismos, achismos, ideologismos e coisital. Mas na garganta, depois do choque inicial, vem a certeza de como é bom cometer apenas erros diferentes; como é boa a sensação de crescer e descobrir que a mesma tecla já não faz nenhum sentido! Talvez seja exatamente nesse estágio que aprendemos a abrir os olhos e enxergar a importância de termos alguém que sobretudo nos faça rir. Tão simples e tão necessário.

Segunda-feira, Junho 15, 2009

Meu tempo é quando

O tempo é mesmo muito louco, não canso de repetir. Quando faltava mais de um ano para o casamento, a ansiedade me fazia desejar que os dias voassem logo, apenas para que eu sentisse que não demoraria tanto assim. Agora que estamos a menos de um mês e com mil coisas esperando na prateleira das pendências, imagino como seria bom ganhar umas horinhas a mais na semana e poder respirar sem a pressão de que amanhã não tardará a chegar. Será que um dia conseguirei fazer as pazes com o ritmo das coisas? Será que chegará o momento em que entenderei que o tempo se move em uma perfeição quase irritante? No fundo, no fundo, acho que tudo acontece apenas porque sou uma pessoa. Isso foi algo que descobri enquanto dirigia hoje de manhã para o trabalho. E isso não precisa ser explicado.

Quinta-feira, Junho 04, 2009

Deixo assim ficar subentendido

A mesma estilista que me disse que era preciso aceitar o sapato branco (ok, estou monotemática), ontem ficou impressionada com a minha escolha. É lindo, mas muito ousado. Você está preparada para as olhadas de canto de olho?, ela perguntou. E fiquei me questionando por que algo tão simples, como escolher arroz quando todo mundo quer macarrão, às vezes choca algumas pessoas. Acho que é mais ou menos quando você decide que não vai mais tomar refrigerantes, como eu fiz, há mais de um ano. Sempre que rejeito a oferta de alguém, escuto as mesmas frases feitas: mas por que isso se você é magra?; só um copinho não faz mal; esse é light!; que frescura! Bom, essa última não são muitos que têm a coragem de dizer. Mas que pensam, pensam. E não consigo entender por que isso incomoda tanto. Por que a necessidade de que todos ajam da mesma forma? Por que a diferença é sempre tão difícil de ser aceita? E nem estou entrando em patamares maiores, como cor da pele, preferência sexual, religião e todas as outras questões polêmicas que fazem parte dessa discussão. Estou falando apenas de sapatos e refrigerantes. Não consigo entender.

Aliás, acho que consigo sim.

Domingo, Maio 31, 2009

Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso



Depois de seis dias em São Paulo, sendo muito amada, enchendo a pança e exercitando o cérebro, volto para uma quase maratona completa de trabalho, casa & casamento. Mas trago comigo algumas certezas, um punhado de esperança, as imagens chocantes de Vik Muniz e os sapatos perfeitos que me levarão direto para a hora do sim. E eles não são brancos.

Sim, é preciso aceitar que algumas coisas não mudam. A essência do que somos, por exemplo.

Terça-feira, Maio 26, 2009

E eu ainda tenho uma tarde inteira

Nesses dias, enquanto organizava a lista de convidadas para meu chá de panelas, me peguei pensando coisas do tipo: claro que não vou chamar fulaninha, sicraninha e beltraninha. Quero apenas minhas amigas comigo. Os adultos estão fora.

E de repente acho que rejuvenesci uns 15 anos. Algumas coisas não mudam.

Quinta-feira, Maio 21, 2009

E tudo ficou tão claro, o que era raro ficou comum

Ontem, enquanto provava o vestido, contei para a estilista da minha total falta de vontade de comprar um sapato branco para o casamento. Por que naonde, meudeus, que usarei um sapato branco novamente? Foi quando ela me disse algo que me tirou o fôlego, ainda que ela sequer tenha percebido:

- Aceite isso. Você vai comprar sim, sabendo que ele ficará guardado para sempre no armário. Ou forre-o depois se quiser. Mas aceite.

Sim, é preciso aceitar. Não se pode ter tudo. Não é isso o que vivo repetindo pelo mundo afora? Então devo começar a entender que há muitas coisas que, independente do que eu pense, vão ser do jeito do elas de fato são. Porque é necessário que seja assim. Não tudo, claro. Algumas mudanças dependem apenas de uma vontade, um gesto. Mas há aquelas que são impossíveis apenas porque é vital manter um certo equilíbrio. Então, sim, eu devo aceitar. Como o contrato já lavrado; como a certeza de que, um dia, olharei fotos do passado e enxergarei mãos suaves já transformadas pelo tempo. Exatamente como, há alguns anos, enquanto devorava episódios e mais episódios de Sex and the City, vi Miranda dizer que se um cara não te liga no dia seguinte, não é porque ele morreu, está fora da cidade ou perdeu temporariamente a voz. Ele não está a fim de você. Às vezes doi um bocado entender isso tudo. Às vezes, um cavalinho apenas é pouco para o nosso mundo de carrossel. Mas o looping da montanha-russa sempre acaba em um reta final. Então aceite.

O que talvez dê para mudar é o conceito sobre sapatos brancos.

Domingo, Maio 17, 2009

Living is easy with eyes closed

Se eu não soubesse exatamente onde estava, poderia ter pensado que caí de paraquedas em algum lugar capaz de revirar os sentimentos de cabeça para baixo. E dessa vez não era somente uma questão da velha visão-romantizada-do-amor, aquela com a qual a realidade não pode competir. Era um remexido por dentro, um gosto de desconhecido na boca e uma grande falta debaixo dos pés. E tudo isso, por alguns instantes, quase tomou para si o entedimento do que é real. Se é que algum real único e absoluto exista. Mas pensando bem, talvez seja por isso que ainda insisto em passear por lá.

Segunda-feira, Maio 11, 2009

Já está escrito, já está previsto

Agora chega de tanta doçura. Voltamos à nossa programação normal. E se nesta noite eu conseguir tirar dos ombros a horrível sensação de dormi-mas-não-descansei, acendo três velas ao sãorivotril e prometo trazer a pessoa amada de qualquer um em apenas três dias. 

Domingo, Maio 10, 2009

Depois de você, os outros são os outros

E lá se vão cinco anos desde o dia em que, num show de Nando Reis, entre muitas cervejas e sorrisos largos, beijei pela primeira vez a boca que venho beijando até então. E se alguém, naquele dia, dissesse em tom de brincadeira que estávamos selando ali nosso futuro, eu teria rido, achado graça e feito um novo pedido ao barman. Mas a vida nos reserva sempre coisas inusitadas. E pega todas as nossas certezas, amarra num saco cor de laranja e joga no lugar mais fundo do mar.

Porque cinco anos depois, temos um lar sendo construído. Temos taças de vinho bonitas, uma geladeira moderna e DVDs misturados em uma só gaveta. Temos o que chamamos de nossos planos. Que não começaram com um pedido formal de casamento ou joelhos curvados no chão. Ao nosso modo, inventamos um romance que cabe dentro do que chamamos de nós dois. E a melhor parte disso tudo é saber que ele se renova todos os dias. 

Sexta-feira, Maio 08, 2009

Entrei na academia, eu malhei, malhei

Já contei que resolvi voltar a malhar? E que agora, pelo menos três vezes por semana, tenho que me virar nos 30 para, em apenas uma hora e meia, sair correndo do trabalho, levantar ferro por 40min, tomar banho, almoçar e estar pronta para o segundo expediente? Poisé. Coloquei na cabeça que, depois dos trintinha, não há mais como correr (sem trocadilhos) da musculação e resolvi entrar numa academia. E eu, que há tempos não ouvia coisas como rosca-direta, supino reto, tríceps na polia e leg 45º, agora gasto 85% do meu corrido horário de almoço tentando recuperar a bundinha que se perdeu em algum momento entre meus 15 e 25 (?) anos. Alguma aposta para até quando eu aguento?

Mas há uma recompensa no melhor estilo Momento Credicard:

- Mensalidade da academia: R$ 60
- Taxa-extra para avaliação física: R$ 15
- Descobrir que seu percentual de gordura está melhor hoje do que aos (longínquos) 20 anos: não tem preço

Segunda-feira, Maio 04, 2009

E a tigresa possa mais do que o leão

Neste fim de semana, enquanto tentava ocupar a cabeça com amenidades, praia, sol e churrasco, conheci um cachorro de rua. E como todos os cachorros de rua, ele tinha muita fome e olhava para as pessoas ao seu redor com os olhos tristes de quem pede ajuda. Mas não se aproximava. Timidez, pensei. Juntei uns pedaços de carne e fui levar para Billy, recém-batizado pela sobrinha de um amigo, ela tão louca por cães como eu. Cheguei junto. Ele abocanhou a comida e correu ao primeiro sinal de um afago. Aceitava a oferta, mas não permitia contatos. Identifiquei de imediato o trauma de um cachorro de rua sofrido: provavelmente já foi machucado, agredido, rejeitado. Morri de pena e teria levado-o comigo para casa, se pudesse. Mas fiquei com ele tanto tempo quando pude. Na volta para casa, quando já estava longe das amenidades, da praia, do sol e do churrasco, levei a lição de que, assim como Billy, as pessoas que também já foram castigadas por outras desenvolvem medo de gente; evitam relacionamentos e fogem ao menor indício de um pequeno elo. Pensei nas tantas pessoas assim que já conheci. Pensei em mim e minhas nóias. E me dei conta de que ainda que gentes tenham me machucado, agredido ou rejeitado, nunca optei pelo caminho do trauma. Consciente ou não, decidi acreditar que daquela vez também valia a pena. E da outra e da outra. Colhi uns tombos grandes por conta disso. Mas ainda defendo a ideia de que é preciso se atirar na piscina, mesmo sem saber se há água ou não. Disso são feitas as paixões e os amores. E a vida (porque essa não tem mesmo controle). A única diferença é que hoje já não me jogo mais em qualquer lugar: sei reconhecer de longe uma piscina que merece meu salto. E consigo ter a noção exata de como ficar ou sair dela, esteja cheia ou vazia. Repito: como é bom poder tocar um instrumento.

Quinta-feira, Abril 30, 2009

Strawberry fields forever

Estou bem no meio (?) daquela fase da vida em que você, acredito eu, tem que se ferrar muito e trabalhar um bocado para colher morangos maduros mais na frente. E não é fácil. Durmo pouco, penso demais, descanso quase nada. Em algumas vezes, acho que vou estafar. Noutras, escrevo no peito que dou conta do recado e sigo em frente. Mas no geral, ando satisfeita em ver a vida acontecendo. Como tem sido até então. O que me mata é a tal da ansiedade.

E segunda que vem faço a primeira prova do vestido de noiva.

Sábado, Abril 25, 2009

Só é possível te amar

Deve ser uma espécie de ritual do sono. Nosso, claro. E é sempre igual: cinco minutos de grude e amor aos litros e, em seguida, adeus ao romatismo da posição de conchinha; é hora do famoso bunda-com-bunda. Afinal dormir folgado é essencial para a saúde de uma relação. A nossa, ao menos. Mas ontem,  quando ele pegou no sono com a cabeça encostada no meu ombro, respirando daquele jeito bem chato (algo como fum, fummmm, fum, fummmm) e com a barba por fazer pinicando meu rosto, não tive coragem de acordá-lo. Ou reclamar. Porque descobri que ter um funga-funga irritante no pé-do-ouvido às vezes também é um sinônimo de amor.

Quarta-feira, Abril 22, 2009

Pelas ruas que andei, encontrei

Porque sei procrastinar como ninguém, acabo escrava do meu próprio tempo. E isso não combina muito com meu discurso de que é preciso correr menos, organizar melhor a própria vida, permitir-se não levar tudo tão a sério o tempo inteiro. Pior é que não levo. Mas também não relaxo por completo. No fundo, pago alguns instantes de total ócio pelo preço de viver eternamente cansada. E não aprendo a lição. Mas tenho taças novas, o peito folgado e a certeza de que minha felicidade não é mera imposição. Sinto que hoje tenho o mundo. 

Domingo, Abril 12, 2009

Mais do mesmo

Porque é quando acordo e vejo-o ainda dormindo, com a boca aberta e cheia de baba nada romântica, que sei, de novo e mais uma vez, porque nos escolhemos. Porque decidimos partilhar nossas falhas e manias, fazendo de conta que o mundo para todos os dias somente para que sejamos felizes. E é porque levanto da cama todas as manhãs acreditando nisso que continuo sentindo o mesmo frio na barriga, tantos anos depois. 

Hoje comprei toalhas novas e edredon macio. Não é isso a felicidade?

Terça-feira, Março 31, 2009

Ilusión

E hoje foi o Orkut que me disse tudo aquilo o que eu precisa ouvir, por mais clichê e autoajudista que isso pareça ser (e é):

- O sucesso geralmente vem para aqueles que estão muito ocupados para ficar procurando por ele.

Obrigada, Deus.

Segunda-feira, Março 30, 2009

Miracle drugs

Ansiedade é uma coisa que faz você quase esquecer o pedido que fez a Deus de que fosse feita apenas a vontade Dele.

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É preciso manter o foco no que de fato importa.

Terça-feira, Março 24, 2009

Elevation

E mais uma vez acendeu o botão da inquietação. Aquele que, se me confunde e tantas vezes me tira o chão, também abre meus olhos e me empurra para a frente. Como todo bom pontapé acaba por fazer. Assim se foram alguns empregos, tantos amores, uma ou outra amizade que já não fazia mais sentido. Deve ser por isso que acordei com um gosto ardido na boca e o estômago revirado. E não, não são borboletas. Apesar de elas continuarem lá, graças a Deus.

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Lembrei de Holden Caufield, que achava que só poderia ser uma coisa no mundo: um apanhador no campo de centeios. Talvez eu seja um pouco maluca como ele.

"Seja lá como for, fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto – que dizer, ninguém grande – a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o que eu tenho de fazer? Tenho de agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer. Sei que é maluquice”.

(J.D. Salinger - O apanhador no campo de centeio)